Na versão cinematográfica do "Guia do Mochileiro da Galáxia", Douglas Adams criou um dispositivo chamado "Arma do Ponto de Vista". Quando usada em alguém, ela faz com que a "vítima" veja as coisas do ponto de vista da pessoa que disparou a arma (Aparentemente a arma foi comissionada pelo Consórcio de Mulheres Irritadas, cansadas de sempre terminar suas discussões com seus maridos com um "Você não entende, não é mesmo?").
A primeira vez que assisti ao filme, achei a sacada da arma genial. Sempre imaginei que, se numa discussão o outro é capaz de enxergar seu ponto de vista, automaticamente a discussão se torna nula. Ledo engano.
Recentemente me vi em meio a um embate onde tenho plena consciência dos pontos de vista das partes participantes e, para piorar a situação, estou investida de grande envolvimento emocional com os dois lados. O fato de entender e sentir enorme simpatia por todos os suspeitos não facilita em nada a minha necessidade - inerentemente humana, de buscar uma solução para o conflito.
O primeiro instinto é o de buscar um lado, pender na direção daquele que detém a "razão", a pessoa em cujas fileiras a verdade buscou abrigo. Mas a verdade, como tudo na vida, é absolutamente subjetiva. A minha verdade é aquela que dá base ao meu ponto de vista, a sua, ao seu.
Então fazer o que? Como lidar com o proverbial bicho que come se a gente fica e pega se a gente corre?
Adoraria poder dizer que lidei com a situação de modo sábio e ponderado e que tomei o caminho da não-ação, do não envolvimento - mas estaria mentindo, e ao contrário da verdade, a mentira é bem menos dada a subjetividades...
O que posso dizer é que enxerguei minha dinâmica dentro de um conflito como se as pessoas envolvidas tivessem me acertado com a Arma do Ponto de Vista e, sinceramente, não gostei do que vi.
A busca do discernimento é um trabalho contínuo; exige empenho, dedicação e, principalmente atenção constante. Se você não se mantém alerta, palavras e ações impensadas e frívolas se tornam os frustrantes dois passos para trás para cada passo que damos a frente.
O trabalho continua....
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